Segurança e liberdade de imprensa entram no foco da cobertura eleitoral
A cobertura jornalística durante o período eleitoral exige
atenção não apenas à apuração e à checagem das informações, mas também à
segurança dos profissionais de imprensa. Ameaças, agressões, ataques virtuais e
tentativas de intimidação podem afetar o trabalho dos jornalistas e o direito
da sociedade ao acesso à informação. Diante desse cenário, a Gazeta de Limeira
ouviu a jornalista Adriana Ferezim, diretora do Sindicato dos Jornalistas
Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), onde atua como secretária de
Registro Profissional e Fiscalização do Exercício da Profissão.
Formada em Jornalismo em 1992, Adriana trabalhou como
repórter, chefe de redação e editora em jornais impressos de São Paulo e
Piracicaba, com atuação nas áreas de política, economia, educação, cidades e
cultura. Desde 2023, integra a equipe de comunicação do deputado estadual Luiz
Claudio Marcolino. Na entrevista, ela aborda os desafios atuais da profissão,
os riscos enfrentados durante coberturas eleitorais, as orientações para casos de
ameaças e agressões e o papel das entidades de representação na defesa da
segurança dos jornalistas e da liberdade de imprensa.
Quais são hoje os principais desafios enfrentados pelos
jornalistas no exercício da profissão, especialmente diante das mudanças no
mercado de trabalho e do avanço das redes sociais?
Nessa última década, houve uma mudança muito rápida na
comunicação e no mercado de trabalho dos jornalistas. O que deveria ser uma
evolução no exercício da profissão, com a internet e com mais acesso à
informação e às redes sociais pela população, na realidade, fez o trabalho da
maior parte dos jornalistas ser precarizado, pejotizado e com acúmulo de
funções, reduzindo postos de trabalho e sobrecarregando os profissionais. O
mesmo profissional faz a apuração dos fatos e a coleta de dados, elabora a sua
pauta, escreve textos e conteúdos, grava e edita vídeos, faz fotos e ainda faz
a revisão e a edição final de todo o seu trabalho. Isso acontece em grande
parte dos veículos de comunicação e por decisão da empresa, e o trabalhador,
sozinho, não consegue evitar essa prática.
Durante períodos eleitorais, jornalistas e profissionais de
imprensa podem ficar mais expostos a ataques, ameaças e tentativas de
intimidação. Quais são as situações mais frequentes e como esses episódios têm
afetado o trabalho jornalístico?
A violência durante as eleições é algo que foi exponenciado
com a polarização depois que o ex-presidente Bolsonaro se tornou candidato e
foi eleito presidente, em 2018. Na cobertura das eleições, há desde xingamentos
durante a apuração, entrevistas e até nas entradas ao vivo. Já ocorreram
agressões físicas, jornalistas que recebem ameaças reais, como alguém perto do
jornalista mostrar uma arma, empurrões, puxões de equipamentos e até assassinatos
de jornalistas.
Como o jornalista deve agir diante de ameaças, agressões,
constrangimentos ou ataques virtuais relacionados ao exercício da profissão?
Existe um protocolo de orientação para esses casos?
É importante o jornalista estar em equipe, nunca andar
sozinho e se juntar com colegas de outros veículos de comunicação. Com o
acúmulo de funções, o profissional vai para o local da pauta sozinho. Grava,
fotografa e apura. Nessa situação, ele fica desprotegido, vulnerável. Em uma
agressão, às vezes, não consegue registrar a agressão, o agressor ou os
agressores. Pode ter dificuldade de obter testemunhas e até de ser socorrido.
É imprescindível acionar a Polícia Militar ou a Guarda
Civil, fazer o registro da ocorrência e ir para uma delegacia registrar o Boletim
de Ocorrência (BO). Também é possível contatar os diretores do Sindicato dos
Jornalistas, que, em todos os grandes eventos que exigem a cobertura de
milhares de jornalistas, como a eleição, fazem o plantão de atendimento aos
profissionais para dar apoio, inclusive orientação jurídica, em casos de
assédio e violência contra os profissionais. Em nosso site, www.sjsp.org.br,
você encontra todas as informações necessárias.
Quais são os canais disponíveis para que jornalistas
denunciem casos de violência, ameaça ou cerceamento da liberdade de imprensa?
Como o Sindicato e a Federação Nacional dos Jornalistas atuam após o
recebimento de uma denúncia?
O Sindicato mantém um canal de denúncias no site. Os
jornalistas podem acessar e devem preencher um formulário. O sigilo das
informações é garantido. Há um grupo de diretores que forma a Comissão de
Violência, que vai receber a denúncia, fazer o atendimento do jornalista,
apurar o caso e encaminhar o profissional para que tome as devidas providências
para a sua proteção e para acionar a Justiça e os responsáveis pela empresa em
que o jornalista trabalha ou para a qual presta serviços.
A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) recebe as
informações sobre violência de todos os sindicatos do Brasil e organiza o
Relatório de Violência contra Jornalistas, que analisa os dados, como número de
registros, quem são os agressores e quais os tipos de violação. Isso garante a
elaboração de orientações aos profissionais, nós temos um guia no nosso site e
também diversas cobranças às autoridades competentes quanto à proteção dos
profissionais, à apuração adequada dos crimes cometidos e ao ajuizamento deles.
No dia da eleição, haverá um plantão específico para atender
jornalistas vítimas de violência ou ameaças. Como funcionará esse plantão, quem
poderá acioná-lo e quais tipos de ocorrências poderão ser encaminhados?
Sim. Em todas as regiões do estado de São Paulo teremos
diretores de plantão para atender essas ocorrências. Os contatos dos diretores
serão disponibilizados no site e eles devem ser acionados em casos de ameaças,
agressões verbais ou físicas e assédio.
Qual é a importância de sindicatos, entidades de
representação profissional e da própria categoria na defesa da liberdade de
imprensa e da segurança dos jornalistas durante o período eleitoral?
Nesse período eleitoral, os jornalistas têm o papel
fundamental de levar informações à população, e isso inclui dar transparência a
fatos como denúncias apuradas com fontes e na própria Justiça Eleitoral. A
censura é algo inadmissível em uma democracia, e, para defender o exercício da
profissão e o direito constitucional da sociedade à informação, o sindicato e
as entidades que representam a classe atuam na defesa e na garantia desses
direitos, do trabalho do jornalista e do direito da população de receber a
informação. O Sindicato age sempre na defesa dos jornalistas e, como
instituição, reivindica o respeito e o atendimento aos direitos que, sozinho, o
profissional não consegue nem reivindicar nem conquistar.
Diante da crescente polarização política e do ambiente de
tensão que pode marcar o período eleitoral, quais cuidados os jornalistas devem
adotar para garantir a segurança durante a cobertura e, ao mesmo tempo,
preservar a independência, a imparcialidade e o compromisso com a informação?
O jornalista profissional deve ser comprometido com a ética
e utilizar critérios técnicos no exercício da profissão. A cobertura de
eleições exige o conhecimento da legislação eleitoral e a obtenção de
informações de diferentes fontes sobre um mesmo tema, controverso ou não. A
imparcialidade ocorre quando o fato a ser divulgado se restringe aos dados
apurados e às informações checadas, sem opinião ou interferência das
preferências pessoais dos jornalistas ou dos interesses do veículo de notícia.
É importante o profissional defender que a edição (do texto,
do vídeo ou do áudio) não cause alterações que descaracterizem a realidade dos
fatos e o trabalho realizado pelo jornalista, que tem o compromisso com a
verdade.
Nas eleições, os jornalistas prestam serviços importantes à
sociedade com a divulgação de detalhes do pleito, como serviços de utilidade
pública, regras e novas normas estabelecidas e também informações sobre os
candidatos, as candidaturas e denúncias.
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