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Identidade, Dor e o Preço do Crescimento

Existe uma pergunta silenciosa que atravessa gerações, culturas e contextos históricos, uma pergunta que cada ser humano, em algum momento da vida, se vê obrigado a enfrentar: quem sou eu? A aparente simplicidade dessa interrogação esconde uma das tarefas mais complexas e decisivas da existência humana. Construir uma identidade não é um evento, não é um momento de revelação súbita nem um presente que alguém pode oferecer a outrem. É um processo lento, muitas vezes doloroso, repleto de tentativas e erros, de perdas e conquistas, de confrontos com o mundo e de negociações internas que duram, em diferentes intensidades, por toda a vida. É precisamente por isso que a maneira como a sociedade contemporânea tem tratado esse processo merece uma reflexão profunda, honesta e, sobretudo, corajosa.

A identidade, tal como compreendida pela psicologia do desenvolvimento, não nasce pronta. Ela se forma. Erik Erikson, um dos pensadores mais influentes sobre o tema, descreveu o desenvolvimento humano como uma sequência de crises psicossociais, cada uma delas representando um desafio que, se bem atravessado, fortalece o senso de si mesmo. Para Erikson, a adolescência é o palco central dessa formação: é ali que o jovem experimenta papéis, questiona valores herdados, confronta a autoridade e busca, nem sempre de forma consciente, uma coerência interna que lhe permita dizer, com alguma convicção, quem ele é e o que deseja. Essa travessia não é tranquila por natureza. Ela pressupõe conflito. Ela exige que o sujeito suporte a ambiguidade, a incerteza, o não saber - e que, ainda assim, siga em frente.

O problema é que as últimas décadas produziram uma cultura que tende a encarar esse conflito como um inimigo. A dor passou a ser vista como um erro de percurso, a frustração como uma falha do ambiente, e a dificuldade como algo a ser eliminado o quanto antes. Pais amorosos, movidos pelo desejo legítimo de poupar os filhos do sofrimento que eles mesmos viveram, passaram a antecipar cada obstáculo, a suavizar cada decepção, a negociar cada limite. Educadores, pressionados por uma visão de educação centrada no bem-estar imediato, reduziram exigências, evitaram reprovações e transformaram o espaço escolar em um lugar onde o confronto com a própria insuficiência se tornou cada vez mais raro. A sociedade, por sua vez, amplificou essa lógica ao construir uma cultura do conforto instantâneo, da gratificação imediata e da intolerância ao desconforto em qualquer de suas formas.

É preciso dizer com clareza: essa transformação não nasceu do nada. Ela foi, em muitos aspectos, uma resposta compreensível aos excessos de gerações anteriores. Houve, no passado, um rigor que beirava a crueldade, uma exigência que esmagava em vez de fortalecer, uma autoridade que confundia disciplina com

humilhação. Era necessário corrigir esse caminho. O erro, no entanto, não foi reconhecer os danos de uma educação autoritária e punitiva. O erro foi, na tentativa de se afastar de um extremo, alcançar o extremo oposto, deixando crianças e jovens sem aquilo que mais precisam para crescer: a experiência de superar algo difícil por conta própria.

Donald Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, cunhou uma expressão que se tornou referência no campo da psicologia infantil: a mãe suficientemente boa. Com essa ideia, Winnicott não descrevia uma mãe perfeita, mas uma mãe capaz de, gradualmente, frustrar a criança de maneira tolerável, permitindo que ela desenvolva sua própria capacidade de lidar com o mundo. A frustração, dentro de um ambiente seguro, não traumatiza. Ela fortalece. Ela ensina ao pequeno ser humano que o mundo não gira exclusivamente em torno de seus desejos, que é possível esperar, que é possível perder e continuar existindo, que é possível sentir raiva e não se despedaçar. Esse aprendizado, aparentemente simples, é a fundação sobre a qual se constrói tudo o mais: a autoestima real, a capacidade de se relacionar, a resiliência diante das inevitáveis adversidades da vida adulta.

Quando esse processo é interrompido ou esvaziado, algo se perde no núcleo da formação identitária. O sujeito que nunca foi confrontado com seus próprios limites não desenvolve uma percepção realista de si mesmo. O jovem que nunca experimentou a sensação de esforçar-se para conquistar algo não aprende a atribuir valor genuíno às suas conquistas. A criança que nunca foi contrariada não aprende a habitar um mundo onde os outros também existem, com suas necessidades e perspectivas igualmente legítimas. O resultado não é uma geração mais feliz. É uma geração mais frágil, mais ansiosa, mais facilmente desestabilizada por qualquer resistência que a vida apresente, e profundamente confusa sobre quem é e o que deseja.

Os dados contemporâneos sobre saúde mental juvenil são, nesse sentido, uma leitura sombria dos efeitos dessa cultura. Os índices de ansiedade, depressão e transtornos relacionados à identidade entre adolescentes e jovens adultos cresceram de maneira expressiva nas últimas duas décadas, justamente no período em que o mundo se esforçou mais do que nunca para protegê-los do sofrimento. Não se trata de uma coincidência. O psicólogo Jonathan Haidt, em seus estudos sobre a chamada geração ansiosa, aponta que a combinação entre a superproteção parental, o esvaziamento da autonomia infantil e a invasão das telas e redes sociais criou um ambiente profundamente hostil ao desenvolvimento saudável do self. Jovens que cresceram sem aprender a tolerar o tédio, a solidão, o fracasso e o julgamento dos outros encontram nas redes sociais um amplificador de todas as suas inseguranças, sem possuir as ferramentas internas para lidar com elas.

Viktor Frankl, psiquiatra austríaco que sobreviveu aos campos de concentração nazistas e fundou a logoterapia, afirmava que o ser humano não busca fundamentalmente o prazer nem a ausência de dor, mas o sentido. E o sentido, na compreensão de Frankl, raramente se encontra nos momentos fáceis. Ele se revela precisamente quando somos convocados a superar algo que parecia impossível, quando precisamos nos posicionar diante de uma escolha difícil, quando somos forçados a descobrir, dentro de nós, recursos que não sabíamos existir. Uma geração privada da experiência do esforço e da superação é, paradoxalmente, uma geração privada de uma das mais ricas fontes de sentido e de identidade.

A questão da felicidade, tão central nos discursos contemporâneos sobre educação e criação, precisa ser recolocada com honestidade. A felicidade não é um estado permanente. Não é um destino que se alcança quando todas as condições externas se alinham. Ela é, antes, uma capacidade, e como toda capacidade, precisa ser exercitada e desenvolvida. O filósofo Aristóteles, muito antes da psicologia moderna, já descrevia a eudaimonia: o florescimento humano, não como prazer, mas como o exercício virtuoso das próprias capacidades em direção a uma vida significativa. Essa visão implica esforço. Implica disciplina. Implica a aceitação de que nem tudo pode ser agradável o tempo todo, e que é justamente nas experiências mais exigentes que o caráter se revela e se forja.

Quando pais e educadores oferecem a crianças e jovens uma versão da felicidade como algo que deve ser garantido, protegido e entregue sem custo, estão, sem perceber, roubando-lhes a possibilidade de descobrir que são capazes. Estão dizendo, na prática, que o mundo é perigoso demais para ser enfrentado, que eles não são suficientemente fortes, que precisam ser permanentemente amparados para não sucumbir. Essa mensagem, por mais amorosa que seja sua intenção, é devastadora para a construção de uma identidade sólida. Identidade não se dá. Identidade se constrói, e se constrói, invariavelmente, com os tijolos da experiência vivida, muitas vezes às custas de arranhões, quedas e recomeços.

O convite que se faz aqui não é ao sofrimento gratuito nem à crueldade disfarçada de pedagogia. É ao equilíbrio. É à coragem de permitir que crianças errem e aprendam com seus erros. É à disposição de dizer não quando necessário, de manter limites ainda que diante do choro, de exigir esforço mesmo quando a tarefa é difícil. É ao reconhecimento de que a presença amorosa de um adulto não significa a ausência de toda dificuldade, mas a garantia de que, ao enfrentar as dificuldades inevitáveis, a criança não estará sozinha. Existe uma diferença fundamental entre abandonar alguém à própria sorte e confiar nele o suficiente para deixá-lo descobrir que é capaz.

A sociedade que se forma neste início de século carrega consigo os frutos de escolhas coletivas feitas nas últimas décadas. Não se trata de condenar gerações

anteriores, cujas intenções eram, em grande parte, genuínas. Trata-se de aprender com os resultados e ter a honestidade de reconhecer onde o caminho se desviou. Formar identidades sólidas, resilientes e autênticas é uma das tarefas mais nobres e necessárias que uma civilização pode assumir. E essa tarefa exige que adultos, em todas as suas funções, pais, professores, terapeutas, líderes comunitários, estejam dispostos a oferecer não apenas conforto, mas também o convite ao crescimento, que quase sempre vem disfarçado de desafio.

Há uma beleza singular na pessoa que, tendo passado por dificuldades reais, olha para si mesma e reconhece que foi capaz de atravessá-las. Há uma dignidade na identidade que foi conquistada, não herdada; testada, não apenas declarada. E há, talvez, uma forma mais profunda e duradoura de felicidade naquele que, ao longo do tempo, aprendeu a confiar em si mesmo o suficiente para enfrentar o que vier, não porque o mundo lhe foi sempre gentil, mas porque ele descobriu, no próprio percurso, que é mais forte do que pensava. Essa é a identidade que vale a pena construir. E essa construção começa quando adultos corajosos decidem que amar, verdadeiramente, às vezes significa não proteger demais.

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