OS DEMOCRATAS VENCERAM
Felipe Granço
Terça-feira, 3 de novembro, Orlando. Fila
da montanha-russa. Gilberto está com a mulher, Dalva, e a filha, Regina. Tem 52
anos, é carioca, mora em Ipanema e nunca leu um balanço. Mas tem opinião, e que
opinião! sobre dólar, imposto e futebol.
— Pai, por que a gente paga para ficar em
pé?
— Regina, sossega. É uma experiência.
E fotografou a fila. Postou com a legenda
amazing. No Rio, noventa minutos de espera dariam reclamação formal. Na
Flórida, eram uma experiência.
Entre uma foto e outra, o celular. O dólar
fechara a R$ 5,49. Gilberto fez a conta da fatura e decretou:
— Culpa do governo brasileiro.
Num telão, Regina descobriu que os
americanos votavam naquele dia. E o pai, solene:
— Midterms. Eleição de meio de mandato. O
mercado já precificou.
Dalva sabia que ele lera aquilo numa
postagem. Quis perguntar o que, exatamente, fora precificado. Não perguntou.
Gilberto considerou aquele silêncio uma forma particularmente desagradável de
oposição.
Eis o drama: em Ipanema, Gilberto é um
dentista entre muitos. Na Flórida, de pulseira e cartão internacional, é
chamado de sir. Em casa, nem a secretária.
Na quarta, a televisão do hotel deu os
resultados. No Texas, uma latina eleita governadora. Em Minnesota, uma indígena
no Senado. Em Michigan, um filho de egípcios conquistara outra cadeira. E na
Flórida, um brasileiro de Duque de Caxias, que vivera mais de dez anos sem
documentação regular, eleito deputado estadual.
Gilberto empalideceu:
— Meu Deus, o que estão fazendo com a
América?
O bisavô de Gilberto, italiano,
desembarcara em Santos em 1898 e se casara com a filha de um português e de uma
indígena. Do lado materno, havia um libanês e uma avó negra do Recôncavo.
Gilberto se apresentava como descendente de italianos, e só!
Regina arriscou:
— Mas, pai, foram eleitos pelos próprios
americanos.
— Você é muito nova para entender.
Caxias doeu mais. Repetiu o nome da cidade
duas vezes, como quem acha defeito na apuração. Gilberto pagava caro para ser
alguém na Flórida. O rapaz da Baixada tinha conseguido pelo voto.
E o mercado, que já precificara tudo,
precificou outra vez. O dólar recuou para R$ 5,45, perdendo força também no
exterior; a Bolsa subiu 1,23%. Analistas atribuíram parte do movimento à
vitória dos democratas. Gilberto chamou de correção técnica. No fim da tarde, o
Copom manteve a Selic em 13,75%. Sobre isso, Gilberto ainda não tinha opinião:
faltava ler a postagem.
Com o dólar mais barato, a família foi ao
outlet. No caixa, o imposto veio discriminado no recibo. Gilberto quase chorou:
— Isso é civilização! Aqui o sujeito sabe
quanto paga de imposto. No Brasil, escondem tudo.
Desde 2013, a legislação brasileira exige
que os documentos fiscais informem o valor aproximado dos tributos. Gilberto
nunca olhou. É contra a reforma tributária, por absoluta certeza de que será
ruim. Não sabe que a Emenda Constitucional 132, de 2023, levará à substituição
progressiva do ISS do próprio consultório pelo IBS até 2033, com a tributação
orientada pelo destino do consumo. Conhece, entretanto, os endereços de três
outlets de memória.
Dias depois, no consultório, um paciente,
já na cadeira, perguntou da viagem. Gilberto falou dos parques, dos banheiros,
das filas. O paciente quis saber das eleições.
— E a América, como está?
Gilberto suspirou.
— Uma maravilha. O problema é que agora
qualquer um quer ser americano.
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